sábado, 22 de outubro de 2016

COMO UMA ALMOFADA PARA O MEU CORAÇÃO







Somente, quem perdeu, muito perdeu, se solidariza com a dor alheia!
 
 
''Na viagem de volta eu pensava nas lágrimas. Nossa cultura diz que os homens devem ser fortes e que a força de um homem, durante, a desgraça, se percebe em sua face sem lágrimas. Lágrimas são para mulheres; elas são sinais de fraqueza, e às mulheres se permite serem fracas. Melhor seria se elas também fossem fortes.
 
     Mas como celebrar uma estoica ausência de lágrimas?
Como insistir em nunca externar o que vai dentro, se isso está sangrando? Será que suportar chorando não requer tanta força quanto nunca chorar? Devemos sempre esconder os nossos sofrimento? Não devemos, por vezes, permitir que as pessoas o vejam  e nele penetrem? Devem o homens fazer isso?
 
E por que é tão importante parecer fortes? Eu fui agraciado com a força para suportar. Mas fui agredido,  e ferido. Estou fingindo outra coisa? Feridas são desagradáveis , eu sei. Causam repulsa. Mas devem ela ser escondidas?
 
Olharei o mundo através das lágrimas. Talvez eu veja as coisas que eu não veria com os olhos secos''.
 
 
''As lágrimas...elas descem e eu as deixo fluir como convém, fazendo delas uma almofada para o meu coração.
 
Nelas, ele descansou''.
 
                                                                                                    Agostinho
                                                                                     Confissões, IX, 12
 
 
 
 
(Extraído do Livro: Lamento - A fé em meio ao sofrimento e à morte - nicholas Wolterstorff, p. 30, 31)


COMO UMA DANÇA INTERROMPIDA QUANDO COMEÇAVA EVOLUIR

 Resultado de imagem para um casal dançando
 
 
 
''Não posso sequer lhe ver o rosto claramente em minha imaginação; no entanto no rosto comum de um estranho em meio a uma multidão de pessoas nesta manhã pode aparecer para mim numa perfeição vívida no momento que fecho os olhos à noite. Não resta dúvida: a explicação é por demais simples. Vimos o rosto dos que mais conhecemos de modo tão variado, de tantos ângulos, sob tantas luzes, com expressões diversas -- acordando, dormindo, rindo, chorando, comendo, conversando, pensando --, que todas as impressões preenchem nossa memória ao mesmo tempo e se anulam num simples borrão; mas sua voz ainda é vívida. A voz lembrada -- que é capaz de transforma-me a qualquer momento num menino chorão''.
 
 
''E, então, um ou outro morre. E pensamos nisso como um amor que foi podado; como uma dança interrompida quando começava a evoluir, ou uma flor com seu botão bruscamente arrancado -- algo mutilado e, portanto, deformado''.
 
 
(Extraído do Livro: C.S. Lewis -- Anatomia de uma dor - Um Luto Em Observação, p. 41, p.71 - grifo meu)